A miséria da política

A fome desapareceu da maior parte do mundo durante o século XX. A modernização das economias e, com ela, o desenvolvimento das infra-estruturas de transportes e comunicações proporcionaram a possibilidade e a necessidade de evitar as catástrofes que, antes, dizimavam grupos populacionais inteiros.

Antes, a fome se abatia, periodicamente, em ciclos de secas ou episódios de guerra, sobre populações que viviam em limites próximos ao da subsistência e dependiam da agricultura tradicional ou do pastoreio. Essas tragédias permaneciam inscritas na memória regional, mas não tinham quase nenhum impacto em lugares mais distantes, em função do relativo isolamento das populações atingidas.

A modernização dos transportes e das comunicações transformou radicalmente o cenário. As catástrofes da fome tornaram-se eventos de impacto político nacional e mundial. Ao mesmo tempo, a economia moderna ofereceu os instrumentos para alimentar as populações pobres submetidas a crises agudas de fome. A imensa maioria dos Estados têm, atualmente, condições financeiras e técnicas de deslocar ajuda de emergência a regiões atingidas por secas, enchentes ou pragas antes que as pessoas comecem a tombar, mortas, sob o peso da fome.

Os Estados temem as catástrofes de fome pois as imagens de “gente morrendo em grande número ao longo das estradas, e os que ainda não morreram sem forças sequer para enterrá-los” têm o poder de provocar revoltas sociais. É por isso que, mesmo em países muito pobres e submetidos a regimes autoritários, os governos mobilizam recursos internos e ajuda internacional para controlar as crises episódicas de fome, impedindo que se tornem catástrofes.

A fome, atualmente, é uma tragédia circunscrita a um reduzido grupo de países paupérrimos, ocorrendo em épocas de secas ou enchentes que se associam ao colapso do poder central.

Nas últimas décadas, catástrofes de fome abateram-se na Etiópia, Somália, Sudão, Moçambique, Ruanda, Coréia do Norte e, na maior parte dos casos, resultaram de guerras civis.

No Brasil não existe fome. Aqui, como reflexo das desigualdades sociais e regionais extremas, existe subalimentação e má nutrição. Essa é uma tragédia vergonhosa, que pesa sobre a população mais pobre e ainda mantém inaceitavelmente elevadas as taxas de mortalidade infantil. Mas, no plano político e social, é preciso distinguir essa tragédia da fome, pois as respostas para uma são diversas das respostas para a outra.

A tela “Retirantes”, de Portinari, pintada em 1944, funcionou como bandeira política para as oligarquias nordestinas que se serviam da miséria regional e das últimas grandes crises de fome para capturar verbas públicas federais. As estradas e os açudes do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), as frentes de trabalho e a distribuição de cestas básicas valorizavam os latifúndios e, simultaneamente, enraizavam o poder dos coronéis que intermediavam os programas federais.

Estas são as estratégias de nossa miserável política, que há séculos vem se projetando em cima da miséria alheia.

Fonte: http://www.clubemundo.com.br/revistapangea/show_news.asp?n=162&ed=1

Demétrio Magnoli

Publicado em Diversos. 4 Comments »

4 Respostas to “A miséria da política”

  1. marcia Says:

    gostaria de obter um modelo de requerimento de anisitia politica
    obrigada

  2. felipe Says:

    enquanto os nossos politicos roubam, nosso povo morre de fome, essa é realidade de todo o mundo.

  3. tatepilot Says:

    Hi everybody! Does anybody know what is levitra? What a shirt? I go crazy about this!
    Look Here

  4. Jaime Nascimento Ex Cabo da FAB - punido pela Portaria 1.104/Gm3/1964. Says:

    PROTEXTO DOS EX CABOS DA FAB

    A Lei 1585 de 28 de março de 1952, em consonância com a Portaria 570, que dava estabilidade aos Ex Cabos da Força Aérea Brasileira, antes do período do Governo do Regime Militar, foi rasgada junto com a Constituição de 1946, e posteriormente, a (LSM) Lei do Serviço Militar 4.375 de 17 de Agosto de 1964, que fazia parte da Constituição de 1967, também foi pisoteada, onde os Artigos 130 á 147 do Regulamento da Lei do Serviço Militar, foram descumpridas pelo o Alto Comando da Aeronáutica, que durante o período da Ditadura Militar, legislou por conta própria, sobre a Inconstitucionalidade de uma Portaria, denominada “Portaria 1.104/Gm3/1964” durante o período da Ditadura Militar.

    E hoje, o nosso Presidente da República que se proclamou um democrata, ao tomar conhecimento de tudo que aconteceu com os idosos ex Cabos da Força Aérea Brasileira, também viola a Lei da Anistia Política contrariando a maior Carta do País que é a Constituição de 1988, dividindo a Classe de Ex Cabos em duas categorias: pré e pós 1964, anistiando uns e desanistiando a outros com julgamentos discriminatórios para a mesma classe dos Ex Cabos, semelhantes ao período antigo dos “Tiranos, Reinados, e da Ditadura Militar”, onde Leis não eram cumpridas pelos Governantes, e com isto, a maioria da população era penalizada. Com descumprimento da Lei da Anistia Política 10.559/2002, e dezenas de Leis não cumpridas por este Governo, onde a nossa Constituição de 1988 foi totalmente desrespeitada comparada as Constituições de 1946 e 1967, que foram pisoteadas pelo o Governo do Regime Militar, estar caracterizado que a reeleição pode ser boa a princípio, mais é má na aplicação, a imaturidade da sociedade civil reflete no Estado, essa minoridade incapacita-nos a aplicar princípios políticos benéficos. Temos uma Democracia na teoria e Ditadura na prática, com resultados totalmente negativos para todos os seguimentos da sociedade.


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